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O Espetáculo

Corpos Dissidentes na Arte Joseense é uma pesquisa que investiga as condições de produção, circulação, recepção e permanência da arte dissidente no território de São José dos Campos/SP, com foco em criações e trajetórias vinculadas a perspectivas queer e à comunidade LGBT+. O trabalho foi produzido pelo Núcleo Abantesma, coletivo artístico e ponto de cultura que é sediado no município, sendo simultaneamente sujeito e objeto do campo analisado.
Essa posição não é apresentada como uma limitação metodológica, mas como a própria condição de possibilidade da análise: uma pesquisa sobre corpos que recusam normas de existência, produzida por quem também recusa as normas de produção legítima de conhecimento. Este trabalho articula quatro eixos complementares:
O primeiro revisita a formação histórico-territorial do município, demonstrando como processos sucessivos de exclusão e controle de corpos, indo da colonização indígena ao higienismo sanatorial, da industrialização aeroespacial até a especulação imobiliária contemporânea, estruturam as condições atuais da produção cultural.
O segundo examina episódios recentes de censura e pânico moral que afetaram o campo cultural local, com destaque para o cancelamento da participação da escritora e ativista Milly Lacombe na Festa Literomusical de 2025 e em seus antecedentes, que evidenciam um padrão de regulação discursiva incidente sobre expressões dissidentes.
Já o terceiro eixo é pautado numa análise autoetnográfica, que percorre a trajetória do próprio Núcleo Abantesma, marcada por tensões com os mecanismos institucionais de controle.
O quarto compreende entrevistas semiestruturadas com dez artistas e agentes culturais LGBT+ ou queer atuantes no município.
Os resultados indicam que a produção dissidente existe no território, mas opera sob um regime de visibilidade restrito, concentrada em poucos agentes e marcada por fragilidade institucional e descontinuidade. Um dos achados centrais é a assimetria entre formatos pedagógicos e discursivos, que aparecem com alta frequência e relativa legitimidade, em contraste com as abordagens centradas no erotismo, no prazer e na autonomia do corpo, que são citadas como abordagens mais raras e quase sempre mediadas por estratégias indiretas. Esse fenômeno é interpretado como efeito da ação de mecanismos de controle simbólico que produzem tanto censura institucional quanto autocensura no campo da cultura, nomeado pela pesquisa como“regime de produção baseado em aceitabilidade”.
A pesquisa também identifica uma profunda escassez de manifestações crip e fazedoras com deficiência, beirando a ausência de relatos e citações consistentes nas entrevistas realizadas, fenômeno que aponta uma lacuna relevante, interpretada tanto como uma confirmação da invisibilidade de artistas com deficiência no território, quanto como um marcador dos limites do próprio escopo desta investigação.
Por fim, o trabalho evidencia uma sobrecarga que recai sobre poucos coletivos, grupos e organizações que reivindicam seus trabalhos como produções culturais que têm sua centralidade nas dissidências de gênero e sexualidade, sustentando esse ecossistema cultural, o que aponta para uma necessidade urgente de fortalecimento das condições de produção, circulação e continuidade dessas práticas no município.

Audiolivro

Ficha Técnica

Autoras: Henri Ferraz e Mandú Carvalho.
Narração: Du Fernandes.
Contribuições: Bhreenndo Mendes, k8 Valença e Wil S. Sousa.
Projeto CORPOS DISSIDENTES NA ARTE JOSEENSE. Contrato n.º 021/2025, beneficiado pelo Fundo Municipal de Cultura por meio do Edital 009/P/2025 – Bolsa de Pesquisa em Cultura e Economia Criativa. O conteúdo desta obra é de responsabilidade exclusiva das autoras e não representa a opinião dos membros do Conselho Gestor do Fundo Municipal de Cultura ou da Fundação Cultural Cassiano Ricardo.
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